
Ana Prestes é neta de Luiz Carlos Prestes, legendário líder de massas e dos comunistas brasileiros. Teve grande formação política desde a juventude e se dedica à atividade intelectual acadêmica, mas com forte acento de práxis política. Milita no PCdoB e está indicada a membro do Comitê Central neste 12º Congresso, em novembro. Jovem, mãe e ativista internacionalista – teve grande participações no Fórum Social Mundial, ela nos concedeu esta entrevista.
O Brasil está sendo repensado, parece que se reabriram perspectivas para um novo projeto nacional. Quando se pensa o futuro não se deve esquecer o passado. Nos anos 1950-60 houve intenso debate sobre a “revolução brasileira” e foi introduzido com força o pensamento de Gramsci em setores da esquerda brasileira. Qual foi a força desse novo paradigma naquele tempo?Antes de mais nada, agradeço o convite e parabenizo a iniciativa de montar estes debates tão necessários para o avanço do pensamento político no nosso país. Passando às questões, penso que a influência do pensamento gramsciano no pensamento político brasileiro tem sido bastante gradual e ganha força ao final da década de 70 e se mantém incrivelmente presente nos dias atuais. Gramsci faz parte de uma 3ª geração de marxistas, ao lado de Lukács, Horkheimer, Marcuse, Sartre, Althusser, quase todos de origem ocidental e engajados em uma matriz mais filosófica do marxismo, seja por opção ou por isolamento das direções partidárias das quais discordavam. Gramsci foi um dos únicos desta geração que conseguiu manter um vínculo mais forte com a luta de massas. Esta ligação só foi interrompida pelo período de cárcere e morte sucessiva. Entre 1929 e 1935, Gramsci preencheu 32 cadernos escolares com anotações e reflexões teóricas e políticas que o revelaram como um pensador marxista de grande envergadura. Seus escritos só foram publicados no final dos anos 40 na Itália e somente ao final da década de 60 no Brasil, coincidindo, portanto, com o período de radicalização da ditadura militar no país. No entanto, mesmo antes da publicação de seus textos, até mesmo pela sua atividade nos debates no interior da Internacional Comunista, Gramsci já exercia influencia nos comunistas de todo o mundo e no Brasil não foi diferente. Intelectuais comunistas brasileiros, entre os quais se destaca Carlos Nelson Coutinho, trouxeram as ideias de Gramsci para os debates políticos no interior do PCB e da esquerda brasileira. Foi neste período que pensadores com Althusser, Marcuse, Sartre e Gramsci, passaram a fazer parte dos debates filosóficos em torno do marxismo no Brasil, sua influência na formulação da estratégia política, no entanto, foi residual. A influência política de Gramsci só veio mais tarde, depois do início da abertura política e coincidiu no Brasil com a decadência da influência do pensamento soviético, as dificuldades de fazer da luta armada uma tática eficaz no combate à ditadura e a explosão da primeira onda de movimentos sociais ao final da década de 70.
Como evoluiu?Desde então a influência do pensamento gramsciano tem sido ascendente, especialmente em temas como mídia e comunicação, educação e movimentos sociais. As categorias analítico-normativas de hegemonia, sociedade civil, revolução passiva, passaram a incorporar o discurso político, mas ainda são sub-utilizadas na produção teórica e intelectual de maior fôlego.
Como esse pensamento influencia a atualidade presente, particularmente quanto à reflexão da exigência de um novo projeto nacional para o Brasil? Que pensadores são mais destacados nesse sentido na academia e na política?Para mim, a grande contribuição de Gramsci foi mostrar que a disputa pela hegemonia não está somente no plano econômico e nem se reduz à tomada do poder pela força simplesmente. Está também na disputa de valores no interior da sociedade. No seio da sociedade civil, dominada pelo pensamento hegemônico burguês, que atualmente ainda é o neoliberalismo, trava-se uma intensa luta político-cultural pela constituição de novos valores societais. Neste sentido, o pensamento gramsciano nos ajuda a vislumbrar o potencial do movimento cultural, social, educacional e das comunicações na disputa por uma nova concepção de civilização. Ganhar posições nestes setores nos ajuda a acumular forças para as batalhas fundamentais na disputa pelo poder político e econômico. Pensadores como Carlos Nelson Coutinho, Leandro Konder e Luiz Werneck Viana seguem sendo grande referência na incorporação do pensamento gramsciano nos debates contemporâneos do pensamento político brasileiro. Outros como Ivete Simionato, Rosemary Dore, Marcelo Ridenti no Brasil e Semeraro, Liguori, Kohan no exterior, também tem dado grandes contribuições neste sentido.
Nação e socialismo, internacionalismo e patriotismo, particular concreto e universal abstrato… O marxismo sempre lidou bem com essa dialética?Vou ser obrigada a fugir da questão. Fazer um apanhado de como o marxismo lidou com esta dialética ao longo de seu desenvolvimento é tema para uma tese de doutorado. Até por uma questão de responsabilidade intelectual não vou me aventurar a palpitar em poucas linhas sobre um tema tão complexo. Por outro lado, gostaria de reforçar que este é um debate ainda a ser enfrentado com mais propriedade entre os pensadores marxistas brasileiros. Em um mundo em que a disputa pela hegemonia sobressai principalmente no plano internacional, crescem as tensões no interior do campo contra-hegemônico na busca de estratégias que calcem o caminho para o brotar de uma nova hegemonia, não só no plano econômico, como no político e cultural.
As possibilidades do Brasil de influenciar nesta disputa aumentam a olhos vistos tanto pela respeitabilidade que o país ganha internacionalmente por uma política externa acertada, como pelo fortalecimento de sua democracia e de sua economia internamente. O fortalecimento da nação brasileira só faz sentido porque existe este jogo de forças internacional que precisará ser enfrentado para que a derrota do capitalismo passe a ser plausível no interior dos Estados nacionais.
(Fonte: Blog do Sorrentino)
